Publicação: 12 de Dezembro de 2009 às 00:00
O Supremo Tribunal Federal decidiu, por maioria de votos (6 a 3), arquivar a reclamação em que O Estado de S. Paulo pedia o fim da proibição do jornal publicar reportagens sobre a Operação Boi Barrica, que investigou o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney. Desse modo permanece a censura imposta no fim de julho pelo desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. A censura já soma 134 dias.
A decisão do Supremo causou surpresas e espantos, principalmente no mundo da imprensa, em todos os setores da comunicação social e nos meios intelectuais e artísticos do país
O artigo de ontem da jornalista e cientista política Lúcia Hippolitto, publicado no Globo, reflete muito bem esse sentimento. O título é “Nem na ditadura”. Transcrevo-o:
- É inacreditável! É estarrecedor! O Supremo Tribunal Federal, a Suprema Corte do nosso país, o guardião da Constituição brasileira e dos direitos dos cidadãos, acaba de legitimar um dos atos mais odientos e repugnantes na vida de povos que se pretendem civilizados.
- Declara textualmente o parágrafo 2º do Art. 220 da Constituição brasileira: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. De novo para a gente não esquecer: “É vedada toda e qualquer censura política, ideológica e artística.”
- Pois os “Supremos” sapatearam sobre a Constituição brasileira e legitimaram a censura à imprensa. Por seis votos a três, os meritíssimos mantiveram a censura ao jornal “O Estado de São Paulo”. Não se trata aqui de defender este ou aquele jornal. Como dizia Thomas Jefferson, um dos pais fundadores da democracia americana e terceiro presidente dos Estados Unidos, “a lei determina que a imprensa dever ser livre, não que seja boa”. Quem decide se é bom ou não é o cidadão.
- Thomas Jefferson é autor, também, de outra reflexão crucial para a democracia. Disse ele: “se eu tiver que escolher entre um governo sem jornais e jornais sem um governo, eu não hesitaria em escolher a última fórmula, isto é, jornais sem um governo.”
- É irrelevante julgar os autores desse processo. O jornal “O Estado de São Paulo” foi censurado porque um juiz amigo da famiglia Sarney proibiu a publicação daqueles áudios deliciosos em que o filho de Sarney, contava como a família exerce seu poder privatizando todos os espaços públicos ao seu alcance, desde um bem do Patrimônio Histórico, como o Convento das Mercês, transformado em mausoléu do patriarca, José Sarney, passando pelo Senado Federal, onde foram empregados aliados, cabos eleitorais, apaniguados, asseclas, netos, cunhadas, agregadas da família, namorados de netas, filhos fora do casamento, amantes ‘et caterva’.
- Não se está julgando o jornal nem a famiglia Sarney. Aqui se trata do perigosíssimo golpe contra a democracia. Golpe perpetrado por aqueles que têm como única função defender a Constituição brasileira. Durante a ditadura militar (qp64-1985) existiu censura. Pesada, tenebrosa. Assustadora. Mas a aplicação da censura era prerrogativa do Poder Executivo, através dos hediondos Atos Institucionais.
- Não se tem notícia de que ministros do Supremo Tribunal Federal tenham cometido a censura. Ao contrário, temos exemplos de ministros heroicos, que resistiram e perderam a toga por ato da ditadura. Os nomes de Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva permanecem vivos na nossa memória. Mas mesmo aqueles que concordaram com o golpe de 64 - e depois se arrependeram -, como o ministro Aliomar Baleeiro, que tirou a toga e a pisoteou quando soube da destituição dos três, jamais legitimou a censura da ditadura.
- Tivemos que viver mais de 24 anos de democracia para assistir à cena de hoje (quinta-feira): seis ministros da Suprema Corte do país apoiando a censura. É importante registrar aqui os votos dos ministros do Supremo. A favor da liberdade de imprensa, dos cidadãos, da democracia e da Constituição brasileira, votaram os ministros Carlos Ayres Britto, Celso de Mello e Carmem Lúcia.
- A favor da censura, contra os direitos dos cidadãos, contra a democracia e pelo desprezo à Constituição de 88 votaram os ministros Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Eros Graus, Ellen Gracie, Ricardo Lewandowski e José Dias Toffoli.
- A morte da liberdade sempre começa com a censura à imprensa.”
Enviado por Tribuna do norte-Natal
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